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30 de Nov de 2008

arturo comas, 2006

a disa e a nova ditadura cultural

Como lembra o Novo Jornal na sua edição desta semana, a DISA (Direcção de Informação e Segurança de Angola) foi criada a 28-11-1975 - "17 dias depois da proclamação da independência). Isso mostra, para quem tivesse dúvidas, que o projecto do MPLA (na figura dos seus dirigentes) era desde sempre o de uma ditadura. E foi o que foi... A semana passada a projecção do filme Cuba: uma odisseia angolana estava marcada para a Universidade Lusíada. Argumentando-se com razões técnicas (às quais os políticos e ditadores devem uma estátua do tamanho do mundo), o filme não passou. Note-se que o filme apresenta uma versão dos acontecimentos (a invasão cubana de Angola) que não coincide com a oficial. A nova ministra da cultura desfez-se num chocante mar de contradições, ameaças e assunção velada de que estamos novamente perante uma ditadura no campo, precisamente, da Cultura. Interpelada sobre o acontecimento disse que "o documentário nunca esteve programado, nem nunca fez parte da selecção oficial do festival" - o que o director, Miguel Hurst, contradiz e, de resto, não era difícil supor que a Ministra tivesse visto algum programa público do Festival, onde o filme era anunciado para o mesmo dia, hora e local e que circulou por todo o lado. O director do festival de cinema de Luanda, que está a começar a dar ao cinema em Angola o espaço que ele e o país merecem, insiste nas razões técnicas. A ministra insiste em que ele terá que "justificar" porque não há menção ao documentário em nenhum dos papéis em sua posse. Aqui está a ameaça. Sabemos o que significa isso e não nos admira que se demita, ou que a ministra demita, quem protagonizou esta iniciativa tão rara entre nós. Miguel Hurst, provavelmente, vai ter de explicar também porque é que a ministra não viu nenhum dos programas que todos os angolanos interessados no assunto viram várias vezes em vários lados e por vários meios... Lembremo-nos de que a película, não só está no programa como também concorre a um prémio na categoria «melhor documentário». É preciso dizer mais? É. Porque a ministra denuncia-se também, afirmando categoricamente que, "pelas suas características" e "erros históricos", "esse filme NUNCA VAI SER POSTO A CIRCULAR". Para não nos assustarmos consegue juntar uma afirmação dessas ao seu desmentido: "isto não é uma censura", é só "uma forma de contrariar versões erradas da História". Pelo contrário, segundo a ministra, trata-se de uma questão de liberdade: "temos que ter o direito a aceitar essa visão ou não". Mas como podemos exercê-lo sem ver o documentário? Então ela esclarece: "não há intenção de retirar aos angolanos a possibilidade de assistir ao documentário". Como? Se ela mesma diz que não deixará circular o documentário, como podemos vê-lo? A liberdade é só a sua, de nos proibir o acesso à informação e à livre discussão cultural. Desconfiei deste ministério da cultura desde a sua nomeação. Achei sempre que, por trás desta ministra e de um dos seus vice-ministros havia um projecto, bem guardado, bem escondido, de instauração de uma ditadura no campo cultural. A primeira prova acaba de chegar. E o seu vice-ministro cala-se. Por enquanto vai deixando que ela se queime sozinha...

namoro

governador

Para quem se interessa por notícias de Benguela: o novo governador anda de município em município a tomar o pulso à situação. O homem tem pelo menos um plano para a província, privilegiando a regularização e generalização do fornecimento de energia eléctrica e a educação. Não parece mau. Suscita, porém, algumas dúvidas a manutenção de toda a equipa do governador anterior. A decisão foi justificada com inteligência: sem ver o trabalho deles e o resultado desse trabalho não sei o que valem. Talvez o que eles fizeram esteja à vista e, portanto, acredito que por qualquer outro motivo (estratégico, ou mesmo por não ter equipa local de absoluta confiança), o governador preferiu esta saída. Reservou assim para si argumentos quer para manter, quer para afastar. Pelo menos está a jogar bem.

damba maria

26 de Nov de 2008

traineiras

25 de Nov de 2008

fim de tarde

23 de Nov de 2008

ondas curtas outubro 2008

ba(i)rro

st538

epílogo

Vinha D. António montado num bífido cavalo branco entre maboques e jacintos. E disse: começarei por sinais; os pássaros estranhos, que durante a batalha tinham coberto o céu de Salvador, como se estivesse para cair pedra, afastaram-se bruscamente e não voltaram mais. À sua passagem, uma geração infeliz inclinava silenciosa

E reverencial o medo.

Permanecendo sentado com solenidade no seu cavalo branco, D. António Sebastião Mbandi foi tirando com a ponta de uma lança a carne da sua carne e deu-a aos seus guerreiros a comer na catedral de São Salvador. Ainda hoje lá está, na Igreja onde rezou D. Pedro II, a dar ao sabor dos súbditos a hóstia da sua carne e o vinho de palma do sangue, estipulado em festa pública.

21 de Nov de 2008

poema com chave de fogo

benguela - centro

O novo governador deve efectivamente começar a governar hoje. Desde a sua nomeação que altos responsáveis provinciais se desdobram em manobras de bastidores (desde maledicências dirigidas contra colegas a golpadas de última hora) que em nada os dignificam. Agora veremos os resultados e por esses resultados o novo governador começa, já, a ser avaliado. A expectativa nele depositada é positiva, embora sem grandes entusiasmos.

20 de Nov de 2008

excerto

Após o canto luzidio das escravas,

Nuvens que exilam balas

De sol, azul de chumbo e transparências

No pano prenhe que cicia do

Cordame altíssimo da chuva.

Pequenos barcos de fumo,

Assim genuínos, do chão

Vão recolher a tradição

Trovejante na poeira

Do arco tenso em grandiosa voz

Que abriu as cordas insuspeitas.

O sol retoca-nos depois o rosto

Molhado num chão de lama seca e

Arrasta os nossos olhos para o mar

Com doçura. Uma noite amadurece

e a brisa puxa do rasgado bolso

Uma cobra infinita,

Mãe de si própria, o país duplo da verdade.

19 de Nov de 2008

en passant

antera cai? não cai? (m. antónio)

jea - um estranho em goa

"as serpentes são surdas"

18 de Nov de 2008

17 de Nov de 2008

benguela sé catedral 2008

identidade e globalização em angola

quem "não é capaz de administrar o seu mercado e preservar os valores da sua identidade, transformando-os em contributo global, fica sem expressão" (José Eduardo dos Santos). Desde sempre este era o caminho a trilhar. Já nos anos 50 Ernesto Lara, filho, alvitrava isso, embora sem os termos globalização e sem a referência ao mercado próprio. A identidade é fluída e negociada a cada momento, mas os seus valores mudam muito mais lentamente (basta ver, por exemplo, os que se mantiveram desde 1950 até hoje). Cabe especialmente aos artistas, às pessoas mais criativas, inventar uma globalização angolana a partir de valores por nós (todos) partilhados. Não sei se alguma equipa governamental poderá fazer isto, mas é uma orientação para os governantes. Também não creio que o actual Ministério da Cultura esteja preparado para dar resposta a este desafio mas, desde que os artistas avancem com a sua arte, as autoridades basta que não criem obstáculos e Angola estará lá, na roda gigante, como já demonstraram alguns (raros) cantores, pintores, dançarinos, escritores.

16 de Nov de 2008

st

14 de Nov de 2008

13 de Nov de 2008

esvaziamento

fernando aguiar

Art Action # 19, 70x50 cm, 2005

esse estranho destino

Esse estranho destino –

Estranho mesmo que esteja

Comigo desde o berço –

Arrasta-me onde vou,

Com vontade, para longe

De mim.

Esperam-me. Quando já

Me conheceram e esperam

Que eu seja aquele mesmo

Por quem esperam, não estou.

Esse estranho destino me levou

Novamente pra outro

Lugar

Onde aprendo que sou

Dali, que sou aquele

Que sempre quis vir, mesmo

Bem consigo, embora

O seu estranho feitio

O tenha afastado

Novamente dos

Amigos daquele

Que fui

E ficaram esperando

Pelo velho menino

Que nunca voltou.

Esse estranho destino

Que me leva tão longe

De todos

Porque sou somente o caminho,

A lonjura, a distância diferente

De quem apenas vê

Outro caminho em frente,

Esse estranho destino

É que sou.