31 de Out de 2008
30 de Out de 2008
nelson pestana
29 de Out de 2008
28 de Out de 2008
27 de Out de 2008
sousândrade - visões
Dando mais claridade ao pensamento
Quanto a tire aos sentidos"
(o primeiro verso é cacofónico mas tem uma riqueza conceptual muito rara na poesia romântica brasileira - e portuguesa)
26 de Out de 2008
25 de Out de 2008
molo momar - epopeia songay
O cavalo branco do songay Mamar
Levanta na pólvora da flecha de Burroughs
A maçã da musa leonina, mosca
Sobre a cabeça do condenado
Em sete segundos sete,
Sem milímetros nem desvios
Sete vidas, sete, pretas.
O cavalo branco do songay Mamar
Levantava os pés do djassere sobre
O rio, levanta
O próprio Daúda sobre as águas claras,
Sobre o lago Yin. Voltou com a nuvem,
A poeira branca do reino Songay,
Quando os seus poetas tornaram a cantar
Nas lâmpadas mágicas dos sinos escuros.
22 de Out de 2008
21 de Out de 2008
confraria da alfarroba
minto tanto quanto posso
e
falsifico as mentiras até que se tornem
palavras dos outros
as minhas costas sustentam o céu
(MAS)
melastomáceas: inventor de harmonias
O vário glabro
Supero ou ínfero
Porém palustre.
A liberdade
verticilada
Inflecte no
Botão das pétalas.
Arte límpida
Som e lei
Fruto e baga
Ornamen
Tado estigma
Subcapi
Tado
Luaxi
Lar, i
números
20 de Out de 2008
19 de Out de 2008
karl popper e antónio damásio
Quanto a afastamentos, penso por exemplo numa ausência que me deixou perplexo: ele nunca cita Piaget para verificar estas hipóteses. As leituras de Descartes podem estar na origem de mais uma diferença, levando Popper a um dualismo que prejudica o seu conhecido interacionismo.
Porém, quero reportar-me especialmente à colocação relativa dos conceitos de 'mente humana' e 'linguagem humana'.
Na p. 263 dessa obra ele fala da "mente humana como produtora da linguagem humana", para a qual temos "aptidões" que "são inatas". Esse inatismo mal definido e a relação directa mente-linguagem parecem-me ultrapassados pelas investigações e hipóteses de Damásio.
A partir daí podemos afirmar com segurança que há uma linguagem das imagens anterior à (e suportando a) linguagem verbal. Essa linguagem das imagens pode ser descrita já como uma protolinguagem ou o hipertexto da nossa linguagem verbal. Ela é já um mecanismo de auto-regulação (uso o termo de Piaget, Popper usa "governo doméstico" - p. 262) do organismo, na sua relação com o meio e na sua relação consigo próprio.
Apesar de ver a "mente humana como produtora da linguagem humana" Popper vai colocar "a base fisiológica da mente humana" no "centro da fala" (pp. 263-264). Isto apesar de ela ser um dos mais altos "centros de controlo" (de auto-regulação). O facto de na altura não termos o conhecimento que temos hoje de como funcionam a mente e a linguagem terá contribuído para esta espécie de reducionismo fisiológico. Os livros de Damásio, com particular ênfase, nos ajudam a construir uma hipótese e uma visão holísticas, por assim dizer. Não há propriamente centros de fala ou de pensamento, embora haja zonas especialmente activas do cérebro quando pensamos, falamos ou simplesmente formamos imagens. Mas todo o cérebro, ou quase todo, é envolvido, incluindo zonas que pareciam neutras para a questão. Os 'centros' são mais é nódulos principais do processamento final de um grande sistema de auto-produção e Damásio avançou com uma hipótese neurobiológica sem precisar de levar em conta "a linguagem e os objectos do mundo 3" (p. 265).
O tal orgão que Popper tanto procurou percebemos então que seja o próprio cérebro a funcionar e interagindo com o corpo.
Essas hipóteses desfasadas hoje, como também a teoria dos dois campos ou hemisférios, devem-se aos limites do conhecimento científico da época (ele cita, sobretudo, obras do fim dos anos 60, o que era inevitável, uma vez que a edição revista é de 1975). Mas isso não obscurece as cintilantes intuições do seu raciocínio (uso a palavra intuição fora do debate filosófico sobre o intuicionismo - apenas levando em conta a sua definição etimológica). É o caso dos "dois problemas" em que subdivide "o problema corpo-mente".
Os "dois problemas" em que subdivide "o problema corpo-mente" são: o de "uma relação muito íntima entre estados fisiológicos e certos estados de consciência" (julgo que pensava na dor de dentes como exemplo) e "o problema muito diferente da emergência do eu e da sua relação com o corpo" (p. 265).
Damásio trata dos dois problemas e desenvolve bastante a reflexão sobre o segundo. Fica-me a curiosidade de saber como Popper reagiria, melhor, pensaria as teorias e os dados trazidos por Damásio e pela sua equipa.
17 de Out de 2008
avançando nas desoras II
Avançando nas desoras ri-me pensativo da longa persistência dos estudos da redenção, da linguagem e do conhecimento na biopsia dos testículos esteréis. Vem e segue-me: renascem continuamente, levantam-se para caírem mais à frente no húmus desajeitado que será talvez a dissidência da sua vocação de escória. Vem e segue-me: em nome de um Deus-pai reanimados, avançam nas desoras para as sementes que os absorvem, numa estória de bichos do mato, sobre um casco de pedras sifilíticas, hipodérmicas e ulceradas. Avançam para as novas largadas de cartilha alternativa, quilha colonial e espírito de aventura atirado à noite sobre as dunas. Conchas leves, ondulantes e afirmativas nos milagres da mão parando as desoras. Das folhas mortas, sem cor já, pisadas, esquartejadas, a desfazer-se em água e terra podre, cogumelos e líquenes, o parasita vem salvar as políticas de cooperação para a inenarrável memória dos dejectos que alimentaram os príncipes no sacrifício propiciatório dos rituais de vítimas animadas. E no entanto é possível encontrarmos razões para cantar. Inevitavelmente nos depuramos para deixar em letras de ouro chamejante o nosso corpo no livro das bem amadas. É o consolo da fuga nas desoras da verdade. Conquista agrícola, sem dúvida, mas também hidráulica, alvorecendo mãos desconhecidas com a luz esperançada que chispa nos olhos aflitos dos emigrantes que chegam escondidos para descobrir as paralogias da glória. Porém, se lhes deres espaço, eles roubarão versos extirpados das entranhas. E aí sim, terás razão para cantar.
avançando nas desoras I
Entro para dentro dos sinos
E oiço mundos perdidos,
Fumos que levantam
Da areia molhada na clepsidra
A música suave das palavras
Milenares, buscam a sombra
Desconhecida do seu rosto.
Na tapeçaria dos fios enrolados
Por abutres e falcões,
Cicoamangas, águias audazes e pássaros agoirentos
De longos narizes afiados
Entre sulcos de sombras;
Na tapeçaria das areias enroladas
Onde o mar deixou os resíduos sem adjectivos,
Onde ficou apenas a música suave das palavras
Lentas, a dignidade silenciosa e mágica da noite
Enquanto escoavam
Nas órbitas vazias
Com olhos revirados
Fitando mundos
Que só pressentimos
Por uma sombra ténue,
Rápida e voraz
Insinuando as órbitas
Vazias, desaparecidas
Quando contentes
Fixavam a luz
Que a terra apenas
O oiro das imagens
Consentia, voláteis,
Breves, incompletas.
16 de Out de 2008
o dia novo
entre dois gritos
o dia novo
inflama
o órgão, avança,
língua
de sua substância
interna
e penetrante
no ani
versário do povo.
15 de Out de 2008
casa
Imagens que equilibram e curam
Realçando o colorido da vida,
A ligação das cordas vibratórias
Ao fantasma dos núcleos inurbanos:
Flechas e tankas
Labirintos e círculos
Mandalas e saunas
Tambores de água
A dança das cabaças
Lojas sonorizadas
Lagartas com asas
Excessos e súmulas
Nenhumas coisas
tudo
nada
um
tudo
nada
só
vazia estrada
apertada
por um nó
que lhe deu casa
movimento
cenário
voo
pó
14 de Out de 2008
inania verba
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
- Ardes, sangras, pregado à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...
O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Ideia leve,
Que, perfume e dano, refulgia e voava.
Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?
E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?!
(Olavo Bilac)
13 de Out de 2008
precipitação
Falo disto a propósito das primeiras afirmações da nova ministra. Foi para além do seu foro para imiscuir-se no ensino das línguas nacionais, aproveitando um evento próximo. Ainda não arrumou a casa e já está a mandar recados para o ministério ao lado. Não é bom prenúncio, penso eu que não é bom prenúncio, amiga Rosa.
Depois, falar assim, de fora, é fácil. Mas onde estão os professores para ensinar as línguas nacionais? Quantos estão a ser formados por ano e quantos podem ser formados no actual sistema de ensino superior? É preciso começar por espalhar e consolidar cientificamente os cursos de formação de professores de línguas nacionais para que tenhamos professores em número e qualidade suficiente. O que significa termos de esperar, para aulas em todo o país, pelo menos cinco a seis anos.
Nesse período é bom irmos cotejando outras experiências. Por exemplo as de Espanha, onde a obrigatoriedade de aprendizagem das línguas locais tem chocado com gerações que, pensando apenas num sentido prático e voltado para a aldeia global, só querem aprender espanhol (castelhano) e inglês. Muitos falantes possuem o espanhol como primeira língua e são obrigados a estudar línguas locais. Será justo? É capaz de ser, mas a liberdade de escolha, para quem não se legitima ideologicamente, é de certeza um princípio a reter.
Por outro lado, enquanto se espera, é de organizar, com os poucos professores que há, cursos de línguas nacionais para pessoas mais velhas, incluindo estrangeiros, que residem aqui tendo que lidar com falantes que preferencialmente usam as línguas locais, a que chamamos por equívoco nacionais. O facto de eles (técnicos superiores, negociantes, licenciados e funcionários públicos) falarem a língua dominante em cada local (para além da portuguesa) mudará muito o cenário, e vai tornar, indirectamente, o ensino e prática das línguas locais mais natural, mais comum e mais eficaz.
Acho que, antes de entrar no campo de acção do Ministério da Educação, a nova Ministra devia arrumar a sua casa e ir pensando com mais prudência nestes problemas todos, informando-se com os colegas do ministério ao lado. Com esse voluntarismo vai somente provocar choques inúteis que em nada ajudam a causa da defesa e ensino de línguas nacionais, que é também uma defesa e ensino da diversidade.
retórica e finanças
Vejam bem que esta crise não se deve à esquerda nem à direita, a republicanos nem a democratas, mas sim ao desfuncional prolongamento de um sistema político à partida venerável: o adorável Bill Clinton facilitou ao máximo a concessão de créditos (nisso, Obama e vários outros estão enganados: os democratas foram os verdadeiros liberais); os republicanos divertiam-se com as delícias do sexo oral ao presidente; depois, no poder, os republicanos deixaram tudo estar como estava (rendia, todo o mundo tinha a impressão de lucrar com isso, não valia a pena mexer no assunto); finalmente, repostos na maioria, os democratas também não se preocuparam em emendar os erros que eles próprios tinham cometido. Quando 'a crise' (sem a qual o capitalismo não vive, porque ele é a crise, ele sobrevive através de crises e crescimentos alternadamente), quando 'a crise' estala escondem-se todos, mais uma vez, atrás de respeitosas fotografias e os políticos vão-nos aos bolsos para não perdermos o emprego - dizem eles. Na verdade, protegem-se uns aos outros. E o socialismo não tem respostas para isto: fecha a bolsa por uns dias, uns meses, uns anos. Depois é claro que reabre a usura e por isso temos a certeza de que não tem nem gera alternativas. Para sair deste ciclo é preciso voltarmos à terceira via e à possibilidade de actualizar as solidariedades orgânicas, corporativas mesmo (é pior ser corporativo às escondidas, porque escondidamente sempre o que predomina é o vício, não a virtude). E responsabilizar políticos, executivos, empresários, pelas consequências sociais das suas decisões. É hora de obrigar todas as instituições de crédito a uma taxa de liquidez que nos garanta os depósitos e de parar com as brincadeiras levianas destes meninos, para quem se aplaca o pânico financiando com milhões os que nos levaram milhões todos estes anos em juros.
Lembram-se de Ezra Pound? Do que ele dizia sobre a usura?
12 de Out de 2008
exonerado
A cidade exultou e, como quem se visse finalmente livre, começou a lembrar toda uma série de episódios tristes que se espera fiquem definitivamente ultrapassados. Contaram-se anedotas, houve muitos risos, muitas pessoas contentes. Hoje de certeza há festas nos quintais.
unidade
sousândrade fragmentos do mar
A noite para mim perde o seu sono,
Nem é meu nem sou dele, o mundo - eu amo!
11 de Out de 2008
adivinha 4
Solúvel em rastos difíceis, vias ondas
Alígeras. Solta a formiga no sudário...
10 de Out de 2008
9 de Out de 2008
poema antigo
Cores vivas vislumbram
Aquilos que não dizemos
Na tinta seca das cartas.
Presença de coros antigos
Dos negros nas plantações
E a tristeza melancólica
Do batuque envolve a roda
G i g a n t e.
Lento ocaso, delicioso
Eu-azul escurecendo
Com as mãos de uma mulher.
(Campinas, 1977 - para Márcia de Araújo Paiva)
8 de Out de 2008
augusto bastos
Foi uma figura fundamental da vida benguelense até 10-04-1936, dia em que, pelas 22h, faleceu vítima de ataque cardíaco.
Político, escritor, intelectual, compositor, pintor, negociante, funcionário público, chegou a corrigir os cálculos matemáticos de um Prémio Nobel da Matemática, o qual lhe agradeceu a correcção que, segundo ele (prémio nobel) se devia a uma gralha.
Fez estudos liceais em Lisboa, tendo regressado a Benguela por falecimento do pai, para assegurar a sobrevivência da família. Foi vereador e presidente da Câmara Municipal de Benguela, tendo sido demitido compulsiva e ilegalmente pelo Governo-Geral. Foi vítima da vaga de prisões de 1917 contra os nativos de Angola. Foi o primeiro angolano a escrever uma narrativa policial, hoje desaparecida (As aventuras policiais do reporter Zimbro). Implantou na cidade de Benguela a obrigatoriedade dos exames de condução e beneficiou largamente a saúde pública, os espaços públicos e a cultura benguelense.
O seu nome foi dado a uma rua central de Luanda (entre as Ingombotas, a Maianga e o Maculusso).
Está sepultado no cemitério de Benguela, numa campa simples (foto acima).
7 de Out de 2008
hieróglifos I
Tagarelar: falar com lagartos secos ao sol.
Tecelões em fila medindo e separando
Como caracóis nas pirâmides.
Tempestade: velas cheias e, no entanto,
Uma serpente em fumo evapora-se do cachimbo,
Do homem deitado sobre o deserto queimado com os pés erectos.
Santuários geométricos e próprias consequências: um tolo contempla
Um girassol já comido por três pássaros dispersos. O seu pensamento
É um escaravelho a deixar o lago seco. Torna-se um boi viril,
Cujos chifres têm na ponta duas mãos de árvore que olham o candeeiro
Que segura com elas o arco dos sinais luminosos. Um homem hieraticamente sentado reflectindo sobre o arco, os sinais luminosos, o candeeiro, os braços esticados. Um precioso portador de selos. Espeta o arco entre si e o lago. Volta-lhes as costas e olha agora para perto de nós. Sentimos-lhe o bafo morno. Põe as mãos em concha e sopra uma folha, a coluna vertebral do pássaro miraculoso que te estende a mão.
Uma abóboda com pés desenha um rectângulo sobre o óvulo vazio.
6 de Out de 2008
5 de Out de 2008
4 de Out de 2008
bater de asas
~bater de asas~
Teclado fino das caudas
Disseminadas no tempo.
Asas nocturnas
Com medo coagulado
À beira da perfeição.
Voo voltado
Sobre si próprio, banzando
-se, das ausências imensas.
Voo picado
No ventre curvo da origem
Macho exaltado com virgem
Por dentro, oculta.
Pauta de pasto em máscara,
Asa, vislumbre de pássaro.
2 de Out de 2008
1 de Out de 2008
soneto moderno e repentino com rima
os países sujos
os países brutos
os países lindos
os rostos astutos
rostos em garimpo
rostos do olimpo
os rostos intrusos
uma percentagem
a cada contagem
já sem ter coragem
ninguém dirá nada
fica só parada
vais ser violada
















