31 de Ago de 2008

olavo bilac

a propósito de parnasianismo, romantismo e de um grande poeta brasileiro:


Fogo-fátuo


Cabelos brancos! dai-me, enfim, a calma
A esta tortura de homem e de artista:
Desdém pelo que encerra a minha palma,
E ambição pelo mais que não exista;

Esta febre, que o espírito me encalma
E logo me enregela; esta conquista
De idéias, ao nascer, morrendo na alma,
De mundos, ao raiar, murchando à vista:

Esta melancolia sem remédio,
Saudade sem razão, louca esperança
Ardendo em choros e findando em tédio;

Esta ansiedade absurda, esta corrida
Para fugir ao que o meu sonho alcança,
Para querer o que não há na vida!

30 de Ago de 2008

ronald de carvalho, sabedoria

Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!
Faze da tua realidade
uma obra de beleza
Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece...

29 de Ago de 2008

surpresa

Depois de alguns dias de marasmo comunicativo decidi-me a ir ver a minha caixa de correio. Lá estava o livro do Adelino Torres, que aqui no 'blog' também apresentei. Uma Fresta no Tempo seguida de Ironias (Lisboa, Colibri, 2008).
Gosto mais da fresta no tempo, mais alcance, mais profundidade. Mas sei que as ironias são certeiras, directas e ficarão de certeza vários exemplos delas para amargarmos e nos consolarmos mais tarde, quando nos for acontecendo o mesmo a que o autor tem assistido e de que alguns de nós temos participado.
Um livro que vale a pena ler e onde a poesia, sem deixar de ser poesia, também não deixa de conversar connosco sobre a pobreza dos nossos dias e a riqueza das nossas (humanas) potencialidades. Nossa: dos seres racionais, críticos e de pontaria assestada sem piedade a toda a falsificação, do que for que seja.
Desde aqui, de Mombaka, da nossa Ombaka, da nossa mBaka, um grande e fraterno abraço.

28 de Ago de 2008

ovo e Cartan

O sistema solar, afinal, tem a forma de um ovo. Essa é a forma básica de organização. Por exemplo, numa manifestação, se não houver limites definidos, o meio tende sempre a ter mais gente que as pontas, pelo que ela tende a organizar-se em ovo. A Páscoa igualmente se organiza em torno de um ovo, apesar de ser o que é.
Henri Cartan, fundador do grupo Bourbaki, morreu com 104 anos a 13 de Agosto.

amascara

menos luz

Conforme avança a campanha eleitoral o fornecimento de energia eléctrica diminui. Agora temos em média 6 horas por dia, quando antes esse era o período médio sem luz. Está claro, por ironia (pois é por não haver luz que está claro), que o partido no governo se continua a sentir seguro. É o que todos sabíamos. É de resto sintomático: a maior parte dos veículos das marchas do partido mostram a razoável colocação social dos seus mais fervorosos militantes. Entrar na campanha é pedir e justificar mais um cargo ou uma benesse. Avante camaradas, que o sol brilhará pra todos nós!

27 de Ago de 2008

s2g3

26 de Ago de 2008

passos do conselho

conselho

Se olhas demasiado para o risco
és capaz de cortar torto
(provérbio nganguela)

teia de aranha

25 de Ago de 2008

ôi!

Um bom sítio para quem gosta de fotografia, tecno-arte e performance: http://www.oifuturo.org.br/expofoto/
passem por lá

21 de Ago de 2008

españa

20 de Ago de 2008

moldura

cacimba / poço

cacimba / poço

19 de Ago de 2008

santa hispânica

espanha

letra capital

poeta estrangulado

18 de Ago de 2008

em marcha

17 de Ago de 2008

arlindo barbeitos - colagem

1
Centopeia com muitas pernas
e sandálias de pacaça
molhou-se com o frio
no mijo das cabras.

2
O sapo azul de Caxixe
se perde nas balas sem olhos
entre noites de brocado
numa ebúrnea geografia.

3
Beiços de imbondeiro,
barbas de milho,
finos cabelos de algodão
- e uma galinha entre as pedras
debica o lixo da revolução.

4
O gato comeu o rato
que tinha espinha de bagre
na bilha de caxipembe.

5
Na molumba da quinda
a alegria do soba
come formigas de antigamente.

Teus olhos flor da noite
são abismos de chuva doce
migrando entre as fogueiras.

7
A voz curva da lua
fala com o jacaré branco
vendendo carnavais.

8
As garras das nuvens
pingam transparências
na poeira dos olhos:

silêncio molhado
na cabeça careca
do morro de salalé.

16 de Ago de 2008

inscrição hebraica - 800 AC

prece

arno holz

And
barely five minutes later
in
the church,
with the blessing of Pastor Dreschhoff,
while
I was crowned with
names,
all around me, the little
wiseguy,
in
densely
circling, snircling,
closing
orbit, yes so be it,
the
Liedtkes, the Tiedtkes, the Ziedtkes,
the
Zorns, the Hebestreits, and the Haberkorns,
the
Kluwes, the Struwes, the Druwes,
the
Brodiens, the Scharfenbergs and the Lewertiens,
the
Kuhnkes, the Gruhnkes, the Ruhnkes,
the
Rieks, the Tuleweits, and the Papendieks,
in short, in
full
array, dignified and elegant, each by rank and degree,
most of the upper
bourgeoisie,
I suddenly cried
out
and
moaned, and consequently groaned,
not because
I was feeling my oats
but rather being stuck
by a very sharp Faber pencil
with the ... imprint

Number
One!

(excerto do poema phantasus, em 3 vol's, 1898-1899, considerado um dos antecedentes da poesia concreta - lembremo-nos de que Un Coup de Dés, outra referência, é escrito em 1897)

canalização portátil

15 de Ago de 2008

inspirações do claustro

alphonsus de guimaraens

Sião que dorme ao luar. Vozes diletas
Modulam salmos de visões contritas...
E a sombra sacrossanta dos Profetas
Melancoliza o canto dos levitas.

As torres brancas, terminando em setas,
Onde velam, nas noites infinitas,
Mil guerreiros sombrios como ascetas,
Erguem ao Céu as cúpulas benditas.

As virgens de Israel as negras comas
Aromatizam com os ungüentos brancos
dos nigromantes de mortais aromas...

Jerusalém, em meio às Doze Portas,
Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos
Evoca ruínas de cidades mortas.

cruz e sousa

SEM ESPERANÇA

Ó cândidos fantasmas da Esperança,
Meigos espectros do meu vão Destino,
Volvei a mim nas leves ondas do Hino
Sacramental de Bem-aventurança.

Nas veredas da vida a alma não cansa
De vos buscar pelo Vergel divino
Do céu sempre estrelado e diamantino
Onde toda a alma no Perdão descansa.

Na volúpia da dor que me transporta,
Que este meu ser transfunde nos Espaços,
Sinto-te longe, ó Esperança morta.

E em vão alongo os vacilantes passos
À procura febril da tua porta,
Da ventura celeste dos teus braços.

poema simbolista

Vetustas portas de cristais errantes
Às horas mortas gastas e frias,
Aquecidas nos membros palpitantes
De convivas fogosas e vazias,

Vejo em teus braços de oiro cintilantes,
Rubis e brilhos, cores que irradias
Na brancura marmórea contrastantes
Das velhas portas gastas pelos dias.

E acendo os incensos no turíbulo
À tua passagem palpitante
Queimando a roupa fina do vestíbulo

Entre passos acesos, coruscante,
Asas na dança das aras do prostíbulo,
Sobre os lívidos mármores, triunfante.

francisco brines, o sono do poeta

14 de Ago de 2008

razões...

Uma boa razão para a Rússia invadir a Geórgia: salvar o Museu Stalin.

frederico ningi

uma eleição antiga em luanda

Esta é do tempo colonial:
"-Mas então?... Sim ou não? Fizeram-se ou não se fizeram?
-Eu... com franqueza... se quer que lhe diga!
-Diga, homem! desembuche com mil diabos! Houve ou não houve eleições no dia 4?
-A mim parece-me... Ouvi dizer... Sim, elles que foram eleitos é porque houve!... Mas que às 10 horas nem gente havia na igreja para constituir a mesa, também é uma verdade!...
-Mas houve ou não houve eleições no dia 4?
Houve; houve com certeza. Foram por detraz, mas foram; e os regeneradores venceram! E eu estou agora com a minha gente!... Maioria enorme, sabe?"

(Alberto Corrêa, Correio de Loanda, n.º 18, ano I, 11-5-1890, p. 1)

13 de Ago de 2008

notícias da china

campanha exemplar 3

Por argumentos discutíveis expulsam-te do teu partido. Com o teu grupo decides apoiar o principal partido da oposição e pões os militantes que te apoiam a fazer campanha por esse partido. Eles são presos sem justificação e, passado dois dias, o juiz descobre que, afinal, não havia razões suficientes para estarem presos. Uma campanha exemplar, em África...

campanha exemplar 2

Alunos e professores que participem na campanha estão ameaçados: se faltarem ser-lhes-ão marcadas faltas injustificadas. O calendário é para ser cumprido escrupulosamente. Veja-se que, ainda por cima, há alunos que participam na campanha pagos pelo governo para realizarem diversas tarefas e esses pagamentos que vão receber é que os ajudarão a pagar propinas. Tanto zelo e depois, quando o partido no poder quer, fecha-se a instituição e pressiona-se todos para irem ao comício. Uma campanha exemplar em África (porquê aquele 'em África'? Exemplar não é em todo o lado?)

campanha exemplar 1

Chegas à tua Universidade, que é pública, para dar aulas. Está tudo fechado. Ficas a saber que é por causa de "um evento" da "instituição" para todos os alunos e professores. Indicam-te o lugar e dão-te a entender que é mesmo para ir. Chegas lá e o partido no poder aparece, com muitas bandeiras, para ler-te o seu programa para a educação.
Um campanha que se quer exemplar em África...

josé luís mendonça

Com seus dedos de rapina os fios eléctricos
Raptam o vôo dos pássaros poisados
Sobre a inocência da manhã.

jorge luís borges

A voz da ave
que a penumbra esconde
emudeceu.
Andas no teu jardim.
Algo, eu sei, te falta.
As aves que a penumbra esconde
são verdes.

adivinha popular

Filhos sem olhos por cima
Olhos sem filhos por baixo

12 de Ago de 2008

epigrama

(m)otherbrecht

11 de Ago de 2008

haroldo de campos

a propósito de regionalismos ou nativismos: "como se lhe fosse destinado [ao Brasil, ao 3.º mundo, aos trópicos], sem remissão, o papel de literatura exótica ou de excepção"

10 de Ago de 2008

estórias de príncipes

"o Príncipe aprende a equitação do verbo"
(Haroldo de Campos)

4 de Ago de 2008

despeito

Os românticos, em geral, não escreviam sonetos. Mas Junqueira Freire escreveu este:

Arda de raiva contra mim a intriga,

Morra de dor a inveja insaciável;

Destile seu veneno detestável

A vil calúnia, pérfida inimiga.

Una-se todo, em traiçoeira liga,

Contra mim só, o mundo miserável.

Alimente por mim ódio entranhável

O coração da terra que me abriga.

Sei rir-me da vaidade dos humanos;

Sei desprezar um nome não preciso;

Sei insultar uns cálculos insanos.

Durmo feliz sobre o suave riso

De uns lábios de mulher gentis, ufanos;

E o mais que os homens são, desprezo e piso.


3 de Ago de 2008

colagem mandrágora

Lucrécia Borja meu amor estive aqui há pouco

Foi por causa da mandrágora

Silêncio! Silêncio! Estou a ficar louco!

A sórdida Lucrécia, demonstração real

De que o padre se compra e a mãe é raposa velha

Se tudo correr bem

O acto por entre subtis isolamentos

Escorregando pelos paralelos

Minimalistas

Hum... sedutora figura

Percorrendo a escala do desejo

Com enigmáticas narrativas

No seu misterioso olhar.

Está bem... Está bem... Descansa...

Dá voltas lentas sobre o palco

Enquanto eu escrevo esta lembrança.

Valha-nos Deus! O alfaiate amoroso

Debruçado sobre a máquina de escrever.

Por vezes sobre a terra comestível,

Por vezes um menino perdido num pântano

Atormentando o conforto dos lagartos.

Bebe mandrágora, filha, bebe mandrágora!

Sempre é melhor que a semiótica.

nevoeiro da hora

Nesse dia discutia-se a beleza

E que disse eu? O polegar?

Música para os meus sentidos?

Um nome assim pronunciado?

A brutalidade da paixão?

Talvez pelo facto de ser audível a tentativa

Introduzida nos melhores círculos intelectuais e

Casada com o desenvolvimento da trama.

Em cadeado. Nós também podemos ascender,

Alcançar o santuário escuro com o ninho de fogo

Da eternidade perfeita e livre de propósitos.

Coloquemo-nos diante do processo de destruição:

Tudo isso é verdade. Mamã, papá, leva-me a dar

Pontapés na bola inocente, consciente, nostálgica não,

Simulacro anedótico da verdade. Uh!

As línguas não são obstáculo. Muito bem!

Toc toc toc pela estrada fora

Minha velha ama que me estás perando

Falta-me o tema, talvez a magia, precisamente:

Eu não passo de um plágio mal feito.

va

reflexo

1 de Ago de 2008

folhagem