30/06/2008

renovação da continuidade

O Presidente deu o mote para a renovação das listas de candidatos a deputados. O partido do Presidente obedeceu prontamente: colocou nas listas a geração mais nova das mesmas famílias que estão no poder e na Assembleia. Entretanto as listas saíram. Havia pessoas lá que não sabiam que estavam lá. A velha guarda conseguiu sair reforçada perdendo membros. A nova geração é mais velha que eu, de forma geral, embora filhos ou sobrinhos de quem está no poder. O resto é um conjunto de rostos sem visibilidade nenhuma, negociatas locais e nacionais de poder, caras que o povo não conhece nem reconhece. E ficam de fora alguns cabos eleitorais importantes. Uma análise das listas de candidatos do MPLA dá nisto: continuam alheios ao país, à sensibilidade das populações e perfeitamente convencidos de que nunca sairão do poder. Vamos caminhando mesmo assim. Fazer o quê?

constant actualíssimo

A inteligência que tudo analisou, semeou a dúvida sobre as verdades e os erros (Benjamim Constant, De la Religion)

23/06/2008

st

Or (espaço)

mugabe, velho nazi

Uma das razões pelas quais Hitler e o nacional-socialismo alemão criaram as câmaras de gás foi para limparem a população de pulgas, enfim, da sujidade em que viviam principalmente os judeus, mas também os negros, os ciganos, alguns vadios. Um dos ministros de Mugabe (verdadeiro morto-vivo que faz gala do seu bigode à Hitler) justificou hoje o assalto à sede do MDC e a prisão de várias dezenas ou centenas de militantes ali foragidos com a preocupação com a sujidade que havia lá dentro. Recolheram-nos na prisão, naturalmente para os lavarem e limparem a sede do MDC. Não é por acaso que se dá a mesma desculpa. Os ex-socialistas da ZANU-PF fazem gala de dizer ao Ocidente: aqui, se quisermos, somos nazis e vocês não têm nada com isso. O Irão faz o mesmo em relação aos judeus. E Hugo Chávez, se lhe derem margem para isso, não tarda muito a imitá-los. Porque é que o nazismo há-de ser tolerado em África ou simplesmente fora da Europa? Em nome de que tradições isso é justo? Em nome de que passados isso é legítimo? Porque é que deixamos às vezes de lutar pela dignidade e liberdade das pessoas e dos povos? O paternalismo em relação a África e a auto-comiseração fingida dos ditadores africanos e respectivas elites é que permitem criar monstros como este. São desculpas para fecharmos os olhos. E depois a realidade vem-nos bater à porta apanhando-nos... desprevenidos!

mapa do indo-europeu


(também não me lembro da fonte deste)

família indo-europeia


(também não me lembro da fonte)

notícias de longe

mapa das grandes famílias linguísticas africanas


(já não me lembro de onde tirei)

20/06/2008

barack obama

O que move Barack Obama é um problema identitário. Um problema que seria totalmente diferente se ele fosse angolano. Os negros acharam-no sempre meio branco e os brancos acharam-no sempre negro. Nos EUA não parece (já é teimosia) existir palavra para mestiços. Depois dos direitos iguais para negros e brancos é preciso reconhecer essa identidade, hoje talvez maioritária nos EUA, que é a dos mestiços. Na autobiografia agora reeditada é isso que fica nítido: um homem luta, consigo próprio e no mundo, para perceber o que é e o seu problema é ser um bocado uma coisa e um bocado outra, melhor, é ser obviamente mestiço. Todos somos mestiços, costuma-se dizer. Mas esses todos inclui negros, brancos, amarelos, vermelhos e... mestiços, não é? Os EUA precisam de repensar as vertentes humanas que os compõem e de adoptar o termo próprio para esse vasto segmento da sua população, onde se inclui grande número de afro e euro descendentes, de descendentes de latino-americanos e alguns ainda de ascendência também índia. Neste sentido, Barack Obama é o candidato ideal para resolver pacificamente o problema racial norte-americano, que precisamente consiste num pensamento e numa classificação racial ainda largamente aceites por todas as partes e que serviu de base à visão que o americano comum tem de si e do seu país. Conhecendo e amando brancos e negros e brancas e negras e reconhecendo-se branco e negro ao mesmo tempo ele será, nesse aspecto, o melhor Presidente para os EUA neste momento.

electricidade e futebol 2

Ontem houve jogo e a luz não falhou: falhou Portugal. Hih!

19/06/2008

a traição à Europa

O 'não' dos irlandeses tirou-lhes completamente a máscara - depois da França, dos Países Baixos e da recusa das restantes lideranças em exporem o Tratado de Lisboa a uma consulta popular já quase não faltava nada para se mostrar: a governança europeia estava de tanga, um pedacinho de pano muito estreito e puído escondia as últimas 'vergonhas'. A democracia, soi-disant, reduz-se cada vez mais à liberdade de falar. Como avisaram muitos, este pequeno lapso de liberdade e auscultação da opinião dos povos estava a acabar. E tornou-se evidente que já terminou. O povo disse 'não', a maioria de uma nação disse 'não'. Isso implica legalmente o fim do Tratado, mas a elite diz que o Tratado não acabou e o povo não sabe que vai dizer que sim. Caso não haja contorno possível (adendas, anexos, etc.), para fazer com que um 'não' seja um 'sim', faz-se outro referendo, e outro, e outro, até se dizer que sim, como acontece com todas as matérias em que as elites políticas da partidocracia se empenham para um 'sim'. É o caso do aborto, do divórcio, da regionalização (há-de voltar), etc. - e independentemente de concordarmos ou não com o princípio que assiste à promoção dessas medidas legislativas. O que se torna perigoso não é concordarmos nem discordarmos, isso é a vitalidade da democracia que exige; não é estarmos contra a maioria, porque os homens livres decidem sozinhos; o que está mal, o que se tornou fatal, foi a falsificação de um procedimento de consulta popular, falsificação à partida. Depois do 'sim' ninguém mais falará em consultas populares sobre o assunto. O povo só é chamado para legitimar a elite - a elite ineficaz para controlar a inflação, o desemprego, a fuga de empresas e capitais, os abusos das gasolineiras, a emigração ilegal promovida a partir de dentro, os ataques de ditadores sem qualificação para serem sequer homens livres. O que se quer é um sim, tendo-o, é um sim até à eternidade. Não o tendo, força-se o povo a dá-lo. Nenhuma geração mais poderá negar-se ao que a anterior acabou por aceitar (pelos vistos, contra vontade). Quando a vontade do povo é respeitada, não é não. Não se vai logo dizer que não senhor, disseram não mas não mudamos nada, enganamo-los, damos uma volta ao texto e ficamos como queremos. Lembro-me das críticas e ironias sobre ditadores e governadores que dizem, no 3.º mundo, que se ocorrer isto ou aquilo eu demito-me - e não se demitem. Mas a elite europeia não está precisamente a fazer isso? Eu continuo a achar os países europeus preferíveis ao Zimbabwe, à Venezuela, à Bolívia, ao Lukachenko e outros esbirros de esquerda e direita e, sobretudo, de si próprios. Mas já não é pela democracia. É só mesmo pela liberdade de falar e pela comodidade com que se vive na Europa - ainda hoje. A democracia acabou na Europa e a pouca-vergonha das elites políticas europeias perante o 'não' da Irlanda tirou as últimas ilusões a quem as tivesse ainda. Isso morreu. Agora vivemos numa orquestra de gralhas onde a vontade ou a consciência não convém que determinem qualquer palavra. Faz-se o mesmo com as greves (não se dá ouvidos, intimida-se subtilmente, ameaça-se com a justiça, o desemprego, etc.). Mas o que é que se podia esperar de uma democracia partidocrática e relativista? Tarde ou cedo cairia nisto e ninguém teria argumentos - desde que a aceitasse - para negar isto. Sendo assim, com que autoridade moral (é mesmo um problema de moral) pode a Europa lutar pela democracia no mundo? Com que autoridade moral podem os liberais assumir-se contra o dirigismo de esquerda ou de direita? Com que autoridade a esquerda poderá continuar a falar em nome do povo? Com que autoridade a direita nos falará na moral e no respeito pelos valores de uma nação quando não lhe reconhece o direito a negar, a não se federalizar? Meus senhores, desde 2005 que vos disseram isso claramente: o que está mal é o Tratado de Lisboa e a vossa atitude de desrespeito pela opinião do povo - justamente o princípio em nome do qual a Europa moderna, actual, se construiu. O que está errado são vocês. Desapareçam.

perseguição do azul



16/06/2008

viriato da cruz - o homem e o mito

Dia 18, às 18h, no Museu República e Resistência, em Lisboa, lançamento do livro «Viriato da Cruz: o homem e o mito», apresentado pelo Prof. Dr. Adelino Torres. Trata-se de um livro colectivo sobre a pessoa e a obra de Viriato, que inclui informações e cópia de documentação inédita, testemunhos de contemporâneos e muita informação adicional, para além de estudos aprofundados sobre a sua vida política. Fundamental para conhecer a vida do autor de «Namoro» e do criador e maior teórico do nacionalismo marxista angolano.

14/06/2008

canção do pelicano - a camões

Com pés de barro e braços de cera, 
Com a chave do óvulo nas margens do Nilo, 
Com pés de enxofre e braços de sal, 
Com sete puras incisões e a luz em sangue

Derramando; com as entranhas em fogo 
E a lagoa reclinada a ocidente, 
Com a leve aragem que busca a tua mão sulina 
E agita levemente as águas como quem chama por ti;

Caminharei, de olhos vendados ainda, 
À sombra da estrela flamejante, nas asas cor de rosa 
Do entardecer, no serpentino refluxo 

De mercúrio. Palavra perdida no mapa astral, 
Com os braços cruzados e as pernas recolhidas 
Como um deus numa semente: caminharei.

13/06/2008

assassinato de agostinho neto

Na UNITA, nos tempos em que nela me integrei, sempre ouvi dizer que o Agostinho Neto começara, pouco antes de morrer, a tentar a paz com Savimbi e este estava disponível para negociar. Agora o livro do general cubano del Pino dá-nos contornos concretos disso mesmo e parece confirmar que Neto foi mesmo assassinado. O que os russos não conseguiram com o 27 de Maio, conseguiram no ano seguinte, já com a anuência dos cubanos, porque Neto mostrava alguma independência nos seus contactos internacionais e na gestão interna da guerra. Levaram-no, separaram-no do médico pessoal e mataram-no. Eduardo dos Santos, bem mais diplomático, prudente, realista e moderado que Nito Alves, ainda que sem o seu carisma, mas tendo estudado na URSS e tendo mulher soviética, foi o escolhido para suceder a Neto. Hoje ele é outro homem, porém na altura a guerra prolongou-se até o MPLA ser obrigado a fazer a paz, ou tentar, em 1990. Afinal havia rumores certos naquela UNITA.

12/06/2008

lobito

Flamingos na restinga

De sotaina branca ondulam sinos

Em brasa na ferrugem dos portos;

Capas de reis cobrem as areias

Fálicas do escolho, da língua

Ventríloqua lambendo o mar;

A crosta queimada pelo sol

Arpoa os bicos estendidos, deuses

vigiando as águas

Esguias como palavras.

11/06/2008

tipografia experimental


Trabalho muito interessante de Jiyeo Song, que se pode consultar em O b v i o u s. Conforme as horas do dia surgem palavras (e frases) diferentes no chão. Fica só uma imagem, que a ligação aqui está cada vez mais lenta (será preparação para as eleições?).

08/06/2008

o fermento

Só, depois da chuva, no silêncio espesso

— Tardias gotas sobre o chão,

Esguias e pássaros coados —

Rescalda a luz dos olhos sobre as casas.

Regresso incógnito e banido

No trágico teatro da coragem

— Lá,

Onde um canto imoral e sem grandeza

Cobre o asfalto indiferente e escasso,

A esbatida cal dos muros baixos,

Maleáveis,

Ignorando que mundo continua

No desbordo curvo das ruas, na viúva

Praia

A fermentar.

jameson benguelense

Uma garrafa de Jameson custa actualmente 1.283 kwanzas num supermercado dos mais caros da cidade. Nos bares o mesmo uíski é, geralmente, vendido a 600 kwanzas a dose, 'por ser irlandês' (excepção feita ao bar e restaurante Tropic: 300 kwanzas a dose). Ou seja: duas doses praticamente pagam a garrafa do supermercado (preço para cliente comum). E ainda te servem, na maioria dos bares, sem medida, um fundinho de copo como dose 'simples' - uma invenção própria de tasqueiros (dose é dose, não há simples nem complicada, serve-se a mesma e cobra-se o mesmo). Alternativa: black e red label carrascão, origem sul-africana, ressaca inigualável. Ainda assim 300 kwanzas a dose, melhor servida.

comércio benguelense 1

É simples: importas tudo o que podes. Tens desconto no país de origem porque, sendo para exportação, não pagas IVA. No entanto sobrecarregas o preço na factura de origem com pelo menos o factor 3 (x3). Os dois que ficam a mais o teu fornecedor passa para a tua conta privada. A mercadoria chega com o preço alto e mostras a factura ao cliente para provares que não estás a roubar. Resultado: os nossos preços. Absurdos. E os produtos nacionais, como as madeiras de Cabinda por exemplo, substituídos por internacionais de menor qualidade. Bonito de se ver. Os maiombolas só querem percentagem, não te rales com isso.

futebol e electricidade

Que os angolanos acompanham muito o futebol português e não só, toda a gente sabe. O que não se sabe é que os maiombolas não gostam de futebol: cada vez que um jogo é muito aguardado a luz falta na cidade a essa hora. As más línguas dizem que são os empresários dos restaurantes e bares combinados com os funcionários da empresa de electricidade. Mas elas não conhecem os maiombolas...

curso de literatura brasileira III

07/06/2008

rené daumal a guerra santa

"...a nossa grande doença é tapar com palavras para não ver" (transcriação de A. Barahona, Lx.ª, Assírio & Alvim, 2002, p. 25) "Olhai a linda paz que me é proposta. Fechar os olhos para não ver o crime" (id., p. 35)

miga banto

Deliciado nestas terras a comer o meu bom funge de galinha, carne seca, ou peixe seco, fui surpreendido por Ladislau Batalha, judeu errante e assumido, socialista, anarquista, ecologista sem o saber como o são os autênticos, que deambulou por estas costas negras uns quatro anos à procura de fortuna após uma falência estúpida em Lisboa. Escreveu umas cartas a um amigo curioso sobre Costumes Angolenses, que se tornaram muito proveitosas ao povo e às escolas. Fico surpreendido porque também ele comia muqueca – de peixe, claro. Sei que não é a brasileira mas a nossa, daqui, onde a banana frita e a batata doce criam no estômago a crosta conveniente às derrotas do vinho tinto carrascão, comprovado que está que o peixe não puxa carroças como se diz em Portugal. Então e não é que o avô Ladislau vem de Lisboa ao mato angolano para encontrar a muqueca feita com peixe do rio e, pasme-se, pão amassado para acompanhar?! Quando era miúdo pensei que a minha avó tinha trazido isso da sua Beira serrana e altiva com seus vinte e poucos anos; já adulto e disperso na lusofonia atlântica, achei que afinal talvez algum ratinho tenha levado a receita do Alentejo para as serranias pobres de pinhais e barrocas deserdadas por Deus e até mesmo pelo Diabo. Agora apanho o avô Ladislau e, com aquela sua prosápia de judeu sabido, ele ensina-me que também comiam disso aqui há cerca de cem anos, pouco mais. Essa mistura de pão velho e água nova que se chama de miga, palavra saborosa e esmigalhada pelo saboreio entre dentes e papilas gustativas.

Uma vez que é função dos intelectuais encontrar a voz certa para o paladar mais agradável, eis-me regressado do meu Kapiandalo natal à biblioteca municipal de Benguela, onde espreito as etimologias de Fr. Francisco de S. Luiz, muito da minha predilecção por inusitadas e ainda assim prováveis. Era para ele a miga uma espécie de sopa, substantiva, que vinha de “migar, partir em pequenos bocados, e misturar para fazer sopa.” Ele tira a miga directamente do grego (“pouco usado”) migw, misturar e dos seus parentes miga (misturadamente) e migaV (mistura). De modo que, em homenagem aos nacionalistas gregos de Angola de sobrenome Dáskalos e aos judeus errantes que por aqui se misturaram, penso fazer este sábado nada menos do que uma boa muqueca de migas e servir assim a lusofonia inteira. Sou ambicioso, sim. Quero bom jindungo, variante mais colorida da chamada malagueta, aliás, quero aquele esticadinho que pica mais e não serve para decoração, misturado com uísqui e azeite doce a cantar desde 19 e troca o passo. Muitos passos para trocar, aliás, na longa sabática de hoje. Ou sabatina? Hi!...

06/06/2008

poema disperso de mário antónio

13. Milenka, o teu mar, húmido Tão largo como a gare Vazia numa madrugada, Fica preso do que não se esperava: Dois rostos apontados a horizontes opostos Buscando, Milenka, o uno Que somos, divergentes. Milenka, somos Jano ou somos Juno Nesta gare já cheia?
(in Colóquio Letras, n.º 72, março 1983, Lisboa, FCG, pp. 69-71)

soluções ecológicas

05/06/2008

obras secretas

A notícia descia do rádio para o chão como um raio de luz: finalmente vão asfaltar as ruas da cidade. O próprio ministro das obras públicas veio dar a notícia, já que se trata de um projecto do governo, e foi secundado por todos os maiombolas d'Ombaka. Mas cada manhã tem sua nuvem, cada luz a sua sombra. Afinal só nos deram 30 km de asfalto, o que não é nada para o que falta fazer. Será por causa da alcunha do Maiombola (30%)? Não sei. Qualquer coisa já dá para pensar que vão fazer tudo. Mais ainda que o prazo para o fim da obra é só em Dezembro, quase 4 meses depois das eleições. Até ao voto basta mesmo tapar uns buraquinhos para os carros do governo sairem rápido e chegarem rápido, são os tempos da campanha. O povo olha aquilo e pensa: sim, senhor! agora é que vai ficar bom! Como se não bastasse, o clímax: o montante total a gastar com essas obras não será revelado. Com as eleições próximas talvez não fique bem imaginarmos as comissões.

02/06/2008

caligramas de anita toutikian


... No Líbano. Pelo que li em L'Orient le Jour trata-se de uma exposição muito interessante. Quer pela transversalidade cultural (experimentada no trabalho visual e criativo com a letra J), quer pela maneira inovadora e sólida como relaciona, artisticamente, o verbal, o visual e, mais genericamente, o mundo dos símbolos, as semiosferas do 'Ocidente' e do 'Oriente'. Vale a pena ler o artigo.

01/06/2008

lançamento da nova águia em évora

A rampa de lançamento será a Universidade de Évora. No dia 3 de Junho. Consultem o blogue da revista. Há boas surpresas.

poesia de adelino torres - último verão

Chegou o estio a arrastar

o bafo quente da ira

em desespero de fogo

quando os espíritos do mal

passam rente ao sofrimento

num cosmos desordenado

que enlouquece a verdade

na confusão do sentido,

matando o perfume antigo

do musgo nos muros velhos

e a música que as ervas cantam

ao renascer de manhã

na planície da ausência

onde agoniza a saudade,

estrangulando em silêncio

o que ficou por dizer

por detrás da aparência

que esconde dissimulada

o ardil da violência,

e a palavra não dita

que se usou sem ser usada

deixando pelo caminho

o amargo sabor do nada...

poesia de adelino torres - tempo dos «ismos»

Chegou a nave dos loucos

que fundeou na baía

ondulando mil bandeiras

uma nova em cada dia

não tem mastro nem velame

tripulada por fantasmas

em tempo de assombração

almas mortas que mataram

a razão da rebeldia

e a vontade da razão

poesia de adelino torres - sobrevivência

SOBREVIVÊNCIA

Enganar a solidão

é viver uma segunda vida

numa passada dormente

à sombra da sombra escondida

do lado de lá da lua

a tentar matar a morte

sem perecer no caminho

de uma noite indiferente

como um cão agonizante

a uivar sozinho...

poesia de adelino torres - aforismo

ATREVIMENTO

É sempre sob a forma de um saber

que a ignorância vocifera.

poesia de adelino torres - extracto

Dos velhos alfarrábios saem vozes antigas

que sussurram pensamentos a moldar a vida

e percorrem estradas verticais até ao tecto

entoando músicas ausentes

que vibram em surdina como se não estivessem lá

de sentinela a guardar fronteiras incorpóreas

em castelos erguidos sobre nuvens com raízes

que mergulham no coração dos homens.

(do poema «Vozes»)

poesia de adelino torres

A Editora Colibri e a Livraria Buchholz têm a honra de convidar V. Exa a assistir ao lançamento do livro de poesia Uma fresta no tempo da autoria de Adelino Torres. A obra será apresentada pelo Professor Alfredo Margarido (Universidade de Paris). A sessão terá lugar na Livraria Buchholz na 2ª feira dia 16 de Junho 2008, às 18h30.