regresso a Benguela

Numa sexta-feira pela tardinha. Guardando em silêncio todos (incluindo a imprensa nacional e internacional) a notícia das dezenas de mortos nas cheias, das centenas de desalojados e não sei quantas novenas para os que ainda vão morrer picados pelas garras eléctricas dos charcos nos caminhos. Abandonamo-nos, num cansaço magoado e escondido para não mostrarmos tristeza, abandonamo-nos à lassidão sensual dos que não fazem parte do mundo. Sentimo-nos tralha: os nossos mortos não são iguais aos outros. Continuamos sós. Alegra-nos a vista nova dos morros áridos e agrestes agora ainda verdejantes, miragens irónicas do paraíso na ambígua disposição do cenário. Vamos ouvindo as notícias sobre os amigos, os cenários, as anedotas, as perspectivas – enquanto entramos na cidade. Avançamos pelo torvelhilho de poeira. Aqui é assim, dizem os vizinhos de outro tempo. A poeira é da cor do milho, ocorre-me. Será que os Incas reparavam nisso? Não conheces aquele aforismo da Bíblia: tu és lama e em pó te hás-de tornar? Aqui é assim. Chove, não lava, só enche de lama. Isto como sabes é seco o ano inteiro. Entretanto sente-se doçura nos olhos e nos gestos. Olha aqueles calções. Aqueles brancos. Achas que ainda é preciso escreveres mais poesias? Em seguida um novo silêncio. Tudo na mesma. Quente, relâmpagos atrás dos primeiros degraus de uma serra continental, uma série de acasos nos recorda mesmo que Deus existe e aqui se vive bem mais essa verdade. Isto sim. O Kapiandalo não ficou muito alagado. Mais ao lado, a chispa dos cascos das palancas na rocha do alcatrão electrocutado queima-nos a pele. Diariamente morremos e tornamos a nascer. As vagas imprecisões vão ganhando intuitivamente contornos concretos, mesmo que em silêncio. As ruas respondem entre altos e baixos, grandes poças de lama e pequenos morros de poeira empedernida. Deitar e dormir. O caminho é para a frente mesmo assim.

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