31/12/2008

ninho

para que fomos feitos?

Nem para a terra nem para o céu fomos feitos. Nem mesmo para ser lembrados. No encontro entre a luz dos nossos olhos e a imagem das coisas provisórias consistem nossa noite e nosso dia. Não tem preço e é inútil aquilo por que suspiramos. Mas também é inútil o que é perfeito e não tem preço a sua perfeição. Por fim não tem preço e é inútil tudo que nos perde ou que nos salva. Fomos feitos para além da vida pequena e - porque pequena - anunciada. Fomos feitos para o clamor do que não sabemos. Para ouvir o som das flores - graças às abelhas - no murmúrio e no anúncio do seu mel. (Ângelo Monteiro, jesuíta beatnick e vice-deus; poema dedicado a Francisco Soares)

festas?

Aí vem ele, gordo e ambíguo, muito redondo, o ano de 2009

28/12/2008

mortos e diferenças

Estamos um bocado cegos. Há, de certeza, 15 civis mortos nos bombardeamentos israelitas de hoje - até agora. Morrem porque vivem junto aos centros militares e policiais que o Hamas coloca, proposita e cobardemente, no meio da população. Entretanto houve um atentado suicida no Afeganistão: 16 civis mortos, dos quais 14 eram crianças. A imprensa, de forma geral, mostra crianças palestinas (duas até agora, mas acredito que venham a mostrar muitas mais) com pingas de sangue no rosto. Não se fala das 14 crianças afegãs assassinadas no atentado suicida. Não houve até agora nenhuma manifestação contra essa prática hedionda e cobarde voltada sobre civis. Até na morte somos injustos. E connosco próprios: encobrindo a iniquidade.

estrada benguela - dombe grande

21/12/2008

caetano de sousa

O dirigente da Comissão Nacional Eleitoral esteve profundamente comprometido com a fase mais repressiva do monopartidarismo, no fim dos anos 70. Talvez por isso tenha sido escolhido para o cargo em 2008. A equipa de observadores da UE, chefiada por Luísa Morgantini, concluiu agora o seu relatório. Aponta muitos casos concretos que indiciam uma falsificação das eleições em larga escala (incluindo taxas de participação de 108%!), dando portanto razão às denúncias da UNITA, da FPD e de outros partidos oposicionistas. Desmascarado, o repressor respondeu dizendo que o relatório estava fora de prazo, devia ter sido entregue logo e, como foi terminado só agora, não merece comentários. Perante isto, jornalistas facciosos como Luís Fernando, que O País pôs à frente das suas isentas páginas, ainda continuam a afirmar que a fraude não existiu, que a votação foi tão expressiva que falar em fraude não faz sentido. Estamos no reino da impunidade, não haja dúvidas. E estes senhores é que estão fora do prazo, porque não se constrói nenhuma democracia com mentalidades destas.

gómez alzaga (martín) - Argentina

tirada de El Muro

cadeira

cacimbo

3 notícias de Angola

O Ministério da Família e da Promoção da Mulher promoveu um estudo que chegou à conclusão de que "parte das famílias angolanas vive de restos". O estudo parece que se resumiu aos frequentadores do Roque Santeiro, e é pena. Mas o próprio Ministério reconhecer o problema, ainda que metonimicamente, é já um avanço. Pode ser que agora, e com as pressões que tem havido no sentido de democratizar os benefícios do desenvolvimento, pode ser que o governo tome decisões e as concretize para minorar a fome no país. Segunda notícia: o político oposicionista Carlos Leitão partirá para o Brasil (São Paulo) para se tratar. A prisão ficou, por agora, ultrapassada. Por seu turno a UNITA demonstrou uma solidariedade pública e efectiva a Carlos Leitão - a oposição começa a acordar? Terceira notícia: vai finalmente começar a recuperação do Aeroporto 4 de Fevereiro em Luanda e vão recomeçar também as obras do novo aeroporto, a 40 km da capital. As empresas envolvidas são a Somague (Portugal) e a Odebrecht (Brasil)...

20/12/2008

o conspirador

Uma excelente surpresa o livro de Jaime Nogueira Pinto, Jogos Africanos. Por muitos motivos: em primeiro lugar a narração vai seguindo a par de referências literárias e cinematográficas enquanto nos conta episódios e peripécias como se fossem parte de um filme de espionagem ou coisa parecida. É coincidente com a actuação do autor-protagonista esta encenação constante, para além disso cria suspense e aumenta a adesão do leitor, a concentração na leitura. Ainda neste campo (da arte literária) o discurso é escorreito, fluente, próprio de um bom conversador. Não sei se por causa da percepção tipo filme de espionagem, por vezes são-nos dados pormenores que é estranho estarem ali, como por exemplo quando se diz a escada, mais ou menos os degraus, se depois se virou à esquerda ou à direita, quantas portas se passou até entrar no gabinete, a descrição pormenorizada do gabinete e da posição em que nos recebem, etc. Isso contribui para o fílmico do livro mas parece também contribuir para a verossimilhança, para nos provar que realmente o autor esteve ali, que nos está a contar a verdade. Surpreende também agradavelmente a sinceridade, a franqueza com que assumiu e assume ali as suas opções políticas. Outro ponto positivo: a correcta nomeação da 'guerra de independência' ou da 'guerra d'África' conforme a perspectiva em que se coloca. Nota-se a sua atracção por personalidades fortes e a condescendência para com regimes autoritários africanos (não colhe, a meu ver, o argumento de serem estados novos - isso cria uma tendência, vê-se, mas não uma fatalidade). É também muito interessante o desfile de informações que nos dá, vindas do 'outro lado' (o da UNITA, da África do Sul, dos EUA, dos neo-conservadores) e perda de mágica ou magia que leva os seus aliados a afastarem-se de Savimbi depois da morte de Tito Chingunji e de Wilson Santos. Interessante, aliás, a investigação que o autor faz sobre essas mortes. Interessante ainda como ele explica o desastre eleitoral da UNITA e os traços da personalidade de Savimbi que vão depois (quando se afasta de conselheiros independentes) contribuir para a rápida queda. Enfim, vale a pena ler e está à venda em Angola.

19/12/2008

entroncamentos

ângelo monteiro: o suplício do duende

"No meu coração ressoam árvores Ignoradas da Terra. E entre seus ramos Dispersa o Duende a lâmpada dos olhos: Na insónia cuja chama não se apaga. Não conto com as raízes dizimáveis Das árvores da Terra. Mas com as árvores Que fincadas mais fundo têm a garra De latejar sem trégua no meu sangue. Não cessa de arrastar-me em seus clamores O Duende insone sob a sombra delas: O Duende de corpo lancinante E a alma perdida nas canções da Terra." (Todas as coisas têm língua: seleção poética, Recife, CEPE, 2008, p. 266)

paga-se?

18/12/2008

tempestade

Leitão preso para assar

Carlos Leitão foi um dos mais activos dirigentes da oposição civil angolana, à frente do PADEPA. Depois de fortes divergências internas, um dos seus companheiros tomou o partido e chegou a disparar sobre Carlos Leitão, no ano passado, frente à respectiva sede. Estranhamente, a polícia não prendeu o atirador nem averiguou nada. Antes das eleições o Tribunal Constitucional reconheceu a liderança do seu rival e a participação do PADEPA nas eleições redundou num fracasso total - esteve praticamente inactivo e, portanto, não recebeu votos nenhuns. Carlos Leitão, que sempre foi o rosto do partido, ficou 'constitucionalmente' de fora e apelou ao voto na UNITA, chegando mesmo a colocar apoiantes seus a distribuir propaganda dos 'maninhos'. Houve escaramuças com a polícia em Luanda por causa disso. Agora, baseando-se numa queixa apresentada pelo seu rival, em que diz que ele falsificou os documentos do partido e abusou do seu poder enquando líder, a polícia, sem mandato de captura e quando Carlos Leitão se preparava para sair do país por questões de saúde, prendeu-o. O seu advogado tenta o 'habeas corpus', alega a ilegalidade da prisão, bem como o facto de o seu constituinte ter problemas cardio-vasculares muito graves (está, aliás, preso no Hospital Militar Principal em Luanda, pois sofreu um ataque logo após a prisão). Nada adiantou até hoje. Carlos Leitão continua preso. Estes episódios somam-se a outros, como a perseguição (ora 'afável', ora violenta) aos militantes do PRS na Lunda, a citação dos irmãos Pinto de Andrade para irem à sede do MPLA justificar o seu afastamento político-partidário (apesar de, pelo menos um deles, há muito já não pertencer ao partido, tendo-se filiado noutro e declarado tudo publicamente), o aliciamento constante de militantes da oposição para se mudarem para o MPLA, com promessas de melhoria de vida, de cargos, etc.. Fica difícil não acreditarmos que o partido maioritário tem um plano para se tornar, na prática, o único. Disfarçadamente ou não, o facto é que os partidos e dirigentes que mais incomodam vão sendo perseguidos. Hoje uma coisa, amanhã outra, dá-se a desculpa esfarrapada do excesso de zelo de alguns militantes e policiais, diz-se que não há plano nenhum, depois de tudo adormecer um bocado faz-se outra patifaria contra a oposição. É assim que se entende a liberdade aqui: somos livres de dar cabo dos outros. No entanto, perante isto tudo, a restante oposição ainda não se manifestou. Depois queixam-se...

11/12/2008

massificação

serpente emplumada

"Quem não se instalar no limiar do instante, esquecendo todos os passados, quem não é capaz de manter-se sobre um ponto como uma deusa da vitória, sem vertigem e sem medo, nunca saberá o que seja a felicidade e, pior ainda, jamais fará algo que torne os outros felizes..." José Marinho, Teoria do ser e da verdade (v. serpente emplumada). Há em José Marinho muitas passagens destas, que fazem lembrar outras de Krishnamurti.

pois aqui estou

10/12/2008

cadeiras espermáticas

Na nossa profissão temos vários tipos de cadeiras. Algumas: dissecantes, secantes, esticadinhas, cadeirões, sofás, poltronas, estéreis. Outras ainda são cadeiras espermáticas:

05/12/2008

...dos últimos dias

O mistério é sempre perigoso.

A proliferação de magos e adivinhos no tempo do racionalismo

É um grande mistério.

A proliferação de igrejas e de santos no tempo do roubo

É talvez um baptistério.

anoitessendo

anoitesser

Era a noite. Iam

As sombras a comer

Os esquivos caminhos

E as chimeras loquazes...

Ainda vinhos de luz

Ardiam deste lado

Do orizonte, Senhora, a desser

E agora transido,

Em cena, espera e ora

Com os ossos do passado:

A Verdade principia

Pelo que em nós

Podia ter sido.

(de As trevas e os dias)

interior

ponte

Foi inaugurada a ponte (metálica) sobre o rio Limbuata, eixo rodoviário que liga a sede municipal do Caimbambo à comuna da Canhamela, na província de Benguela. A ponte foi realizada em dois meses, tempo considerado recorde. Embora o projecto viesse de antes, como tantos outros, a sua rápida e eficaz resolução faz crescer nos benguelenses, desconfiados ainda, alguma esperança no destino da província. Por outro lado o novo governador parece ver com simpatia a multiplicação de mini-hídricas para resolver localmente as necessidades de energia eléctrica. Dadas as características do interior da província, parece uma solução (entre outras anteriormente aventadas) ecologicamente aconselhável e também eficaz. Veremos mas, para já, continua no mínimo o benefício da dúvida.

03/12/2008

laço

tão constitucional!

O constitucionalista Adérito Correia acha normal que, antes da eleição para a Presidência, seja mudada a Constituição do país. A 'normalidade' vem de não se poder eleger o Presidente com um figurino e depois, logo a seguir, mudar esse figurino. A. C. diz que há legitimidade igual em ele ser eleito pelo parlamento ou directamente (lembro-me da campanha das 'directas já' no Brasil, uma bandeira do fim da ditadura militar). Tudo bem. Também concordo com o modelo presidencial e acho que o eleito será o mesmo, mas não é o mesmo ser eleito por sufrágio directo ou num parlamento onde o partido maioritário detém 81 vírgula tal por cento. Se os deputados disputam a eleição directa, o Presidente deve fazê-lo também - até para sabermos que percentagem da população se arrependeu já do voto no MPLA e para darmos lugar à diversidade na escolha. O problema está nisto: se não é correcto eleger um presidente e logo a seguir mudar a Constituição, será correcto eleger um parlamento sem avisar a população de que a nova assembleia se destina a mudar a Constituição? Será correcto, em função das legislativas (que não foram constituintes), escolher e nomear um governo que, antes de um ano, terá de ser reformulado para o novo figurino presidencialista? Não nos esqueçamos do mote da campanha: servir o povo melhor, fazer as coisas funcionar, incrementar o desenvolvimento e os projectos sociais. Para convencer o povo se asfaltaram as ruas à pressa, se deu aquela aparência de que íamos caminhar a passos largos para uma superior qualidade de vida. Mas ninguém nos disse que, afinal, logo a seguir, iam mudar a Constituição em aspectos tão fundamentais quanto a eleição do presidente e o cariz do regime (presidencialista, parlamentar ou semi-presidencial como é agora). Isto é o que se pode chamar um golpe de estado 'jurídico'.

caderno escolar

02/12/2008

?

multipress - angonotícias

O Partido de Renovação Social (PRS) acusa o partido no poder, MPLA, de estar a perseguir os seus membros com actos de intimidações, aliciamento e chantagem com finalidade de estrangular as acções desta força política. Estas acções, segundo adiantou o secretário executivo do partido Joaquim Nafoia, têm sido registadas com frequência na província da Lunda-Norte, região em que esta força política na oposição ostenta grande popularidade.

guillermo deisler

30/11/2008

arturo comas, 2006

a disa e a nova ditadura cultural

Como lembra o Novo Jornal na sua edição desta semana, a DISA (Direcção de Informação e Segurança de Angola) foi criada a 28-11-1975 - "17 dias depois da proclamação da independência). Isso mostra, para quem tivesse dúvidas, que o projecto do MPLA (na figura dos seus dirigentes) era desde sempre o de uma ditadura. E foi o que foi... A semana passada a projecção do filme Cuba: uma odisseia angolana estava marcada para a Universidade Lusíada. Argumentando-se com razões técnicas (às quais os políticos e ditadores devem uma estátua do tamanho do mundo), o filme não passou. Note-se que o filme apresenta uma versão dos acontecimentos (a invasão cubana de Angola) que não coincide com a oficial. A nova ministra da cultura desfez-se num chocante mar de contradições, ameaças e assunção velada de que estamos novamente perante uma ditadura no campo, precisamente, da Cultura. Interpelada sobre o acontecimento disse que "o documentário nunca esteve programado, nem nunca fez parte da selecção oficial do festival" - o que o director, Miguel Hurst, contradiz e, de resto, não era difícil supor que a Ministra tivesse visto algum programa público do Festival, onde o filme era anunciado para o mesmo dia, hora e local e que circulou por todo o lado. O director do festival de cinema de Luanda, que está a começar a dar ao cinema em Angola o espaço que ele e o país merecem, insiste nas razões técnicas. A ministra insiste em que ele terá que "justificar" porque não há menção ao documentário em nenhum dos papéis em sua posse. Aqui está a ameaça. Sabemos o que significa isso e não nos admira que se demita, ou que a ministra demita, quem protagonizou esta iniciativa tão rara entre nós. Miguel Hurst, provavelmente, vai ter de explicar também porque é que a ministra não viu nenhum dos programas que todos os angolanos interessados no assunto viram várias vezes em vários lados e por vários meios... Lembremo-nos de que a película, não só está no programa como também concorre a um prémio na categoria «melhor documentário». É preciso dizer mais? É. Porque a ministra denuncia-se também, afirmando categoricamente que, "pelas suas características" e "erros históricos", "esse filme NUNCA VAI SER POSTO A CIRCULAR". Para não nos assustarmos consegue juntar uma afirmação dessas ao seu desmentido: "isto não é uma censura", é só "uma forma de contrariar versões erradas da História". Pelo contrário, segundo a ministra, trata-se de uma questão de liberdade: "temos que ter o direito a aceitar essa visão ou não". Mas como podemos exercê-lo sem ver o documentário? Então ela esclarece: "não há intenção de retirar aos angolanos a possibilidade de assistir ao documentário". Como? Se ela mesma diz que não deixará circular o documentário, como podemos vê-lo? A liberdade é só a sua, de nos proibir o acesso à informação e à livre discussão cultural. Desconfiei deste ministério da cultura desde a sua nomeação. Achei sempre que, por trás desta ministra e de um dos seus vice-ministros havia um projecto, bem guardado, bem escondido, de instauração de uma ditadura no campo cultural. A primeira prova acaba de chegar. E o seu vice-ministro cala-se. Por enquanto vai deixando que ela se queime sozinha...

namoro

governador

Para quem se interessa por notícias de Benguela: o novo governador anda de município em município a tomar o pulso à situação. O homem tem pelo menos um plano para a província, privilegiando a regularização e generalização do fornecimento de energia eléctrica e a educação. Não parece mau. Suscita, porém, algumas dúvidas a manutenção de toda a equipa do governador anterior. A decisão foi justificada com inteligência: sem ver o trabalho deles e o resultado desse trabalho não sei o que valem. Talvez o que eles fizeram esteja à vista e, portanto, acredito que por qualquer outro motivo (estratégico, ou mesmo por não ter equipa local de absoluta confiança), o governador preferiu esta saída. Reservou assim para si argumentos quer para manter, quer para afastar. Pelo menos está a jogar bem.

damba maria

23/11/2008

ondas curtas outubro 2008

ba(i)rro

st538

epílogo

Vinha D. António montado num bífido cavalo branco entre maboques e jacintos. E disse: começarei por sinais; os pássaros estranhos, que durante a batalha tinham coberto o céu de Salvador, como se estivesse para cair pedra, afastaram-se bruscamente e não voltaram mais. À sua passagem, uma geração infeliz inclinava silenciosa

E reverencial o medo.

Permanecendo sentado com solenidade no seu cavalo branco, D. António Sebastião Mbandi foi tirando com a ponta de uma lança a carne da sua carne e deu-a aos seus guerreiros a comer na catedral de São Salvador. Ainda hoje lá está, na Igreja onde rezou D. Pedro II, a dar ao sabor dos súbditos a hóstia da sua carne e o vinho de palma do sangue, estipulado em festa pública.